sexta-feira, 7 de maio de 2010

Esse Floyd podia ser eterno

             Aqui estou, 2 e meia da manha, mais doses do que conseguiria aguentar no fígado e no sangue... Atom Heart Mother tem 23 minutos, que passaram em um piscar de olhos agora.... que posso fazer? Admito que os caras fizeram a parte deles, mas uns 10 minutos a mais não iriam mal.... custava solar mais 25 centavos?
             Nesse momento esqueço qualquer problema, complicação, estresse, e o que seja e me perco nas vozes russas falando coisas incompreensíveis que fazem todo sentido para mim. Junto o meu íntimo que me diz para fechar os olhos, baixar o queixo, cerrar os dentes e correr, pela minha vida e a de ninguém... Pego isso deixo em segundo plano e me entrego de corpo, alma e espírito (etílico, claro) a esse tecladinho escroto e ao "silence on the studio... Que mais posso almejar? Que mais posso merecer?
              Fecho os olhos, negando qualquer possível epifania ou epitáfio... só quero mais dez minutinho de atom heart mother para indivisívelmente seguir, ad eternum, em um solo dos outros, apenas rezando e clamando por mais dez minutinhos.

domingo, 7 de março de 2010

Quando o destino nos sorri ou ri de nós [Riding the gravy train] (Parte 1)

     Cai a noite. Nada mais piegas para o começo de uma história, seja ela de amor ou não. Mas é nesse clichê de livros ruins (das quais para meu espanto, as livrarias e bibliotecas estão cada vez mais lotadas) que tudo começa. Não sei bem se constitui um começo ou um fim, pois tudo se finda e recomeça no cair da noite, mas por puro formalismo vamos assumir que é um começo.
      Caiu a noite e aqui comecei uma jornada. Na noite anterior havia encontrado uma garota diferente, daquelas que dão vontade de gritar: "Meu Deus, é essa". Conversa rápida de bar, troca de nomes. Drinks vem chegando e sumindo, a conversa se estende, a hora se esvai... Dou meu telefone, esperando em vão receber o dela... "Lésbica, certeza!" penso. Mais conversa, mais bebida e ela simplesmente se vai. Não da minha mente.
      Amanheci em um canto qualquer do meu apartamento. Decidido. Hoje seria o dia, não acreditava que a vida me daria outra chance. Segui minha rotina normalmente até o anoitecer. Com o sol se pôs minha lucidez e meu bom senso, ou meu senso de realidade. A noite transforma as formas. Reforma e deforma. Deformei-me e meu alter ego não tinha dúvidas. Era hoje o nunca. Vaguei para o mesmo bar da noite anterior, na esperança de vê-la. Esperei até o começo da madrugada, sem sucesso. A hora passava e meu desejo recrudescia. Rapidamente atingi um estado de letargia moral e de entrega aos instintos. Sabia o que fazer.
      Vesti meu casaco e sai a caça. Fui para as ruas sujas da cidade, mas sabia que não a encontraria ali. Como achá-la sem pistas em algum lugar desse formigueiro? Não precisava de prostitutas, mas confiei no destino. Recusei todas as vadias que se ofereciam e estacionei, esperando para ser assaltado. Um grito cortou a luxúria inerente ao bairro todo. Dirigi até o local, farol desligado. Peguei o velho canivete suíço no porta-luvas e corri até onde aquela mulher gritava freneticamente. Que diabos de bairro era esse onde ninguém se importava com uma mulher gritando na noite? Em um beco, um rapazola espancava uma mulher, que se recusava a soltar a bolsa. Aproximei-me furtivamente e cravei meu canivete em sua carne. Oito vezes.
      Ajudei-a a se levantar. Ela olha em meus olhos com um misto de agradecimento e medo. "Carona?", "Seria ótimo".
        Levei-a até o subúrbio, muitos quilômetros de onde estávamos. Não conversamos no percurso. Não me importaria normalmente com esse tipo de coisa, mas não nego que queria saber o que de tão importante havia naquela bolsa. Quando enfim chegamos e destravei a porta do carro, olhei-a novamente nos olhos, agora tranquilos. "Que horas amanhã?", " as oito".

Quando o destino nos sorri ou ri de nós [Amused itself to death] (Parte 2)

      Cai a noite. Sexta-feira...tudo se transforma. A noite de sexta tem ainda um ar mais especial que as noites dos outros dias da semana. Não sei o porquê, mas me alegro em saber que nem todos se renderam à segunda de manhã. Apanho-a no subúrbio, que me pareceu ainda mais longe dessa vez. Oito horas, como combinado. Estaciono, desligo os faróis. Nem preciso chamá-la, prontamente aparece. Enfim dou uma boa olhada. Loira, alta, 20 e muitos anos, se não trinta. Bem vestida, sem parecer uma freira ou uma puta. Mesma bolsa da noite anterior. Corpo escultural. Entra no carro sem cerimônia. "Como é seu nome?" "Amelie. E o seu.", "Importa?","Não." Era exatamente o tipo de mulher que precisava para hoje.
     Vamos ao mesmo bar de todas as noites. Sentamos, peço dois whiskeys duplos. "O que você vai querer?",  "Uma marguerita", ela bebe como puta... pouco conversamos, mas já estava claro como essa noite iria terminar. Porém eu estava mesmo com sorte. No boteco, entra a lésbica de quarta. Sorri ao me ver, convido-a a se sentar conosco. Se apresenta a Amelie, pede algo forte para beber. E a conversa flui. "Então como você conheceu a Amelie?". "Vim ontem nesse bar, ver se te encontrava. Você não apareceu, fiquei bêbado como um gambá e sai na rua, te caçando"."Me encontrou? (risos)"."Não, mas fui em um bairro de putas e encontrei Amelie". Amelie só ri da situação toda, porém permaneço impassível. "E hoje, veio aqui para ver se me encontrava de novo?", "Sim. Parece que deu certo"."Está certo disso?", "Não, mas é o melhor que tenho","Uma puta como isca e uma conhecida de bar?", "É mais do que tinha ontem". Amelie sorri, enquanto remexe nervosamente na bolsa.
      As duas vão ao banheiro, e Amelie leva a bolsa em que tanto quero fuçar. Demoram um pouco. Deve mesmo ser lésbica... só espero que ela goste de variar de vez em quando. Quando voltam e se acomodam, disparo. "Vamos lá para casa?", "Nós três?", pergunta Amelie. "Não, acho que você está confundindo as coisas", diz a lésbica de quarta. "Então eu catei essa puta do outro lado da cidade para você simplesmente falar que não? Resignei minha masculinidade para satisfazer seus desejos lésbicos e você me vira as costas?". "Não sou lésbica", responde a lésbica de quarta. Termina seu drink e sai, sem falar mais nada. Ah o amor. Não suporta a verdade.
      Peço a conta e chamo Amelie. "Para onde vamos?", pergunta. "Para algum motel barato perto de onde te encontrei ontem". "Ok", responde. Era exatamente o tipo de mulher que precisava em uma noite dessas. Encontramos uma espelunca qualquer. Um forte cheiro de limpeza escondia a sordidez que emanava de lá, ou apenas protegia da sordidez que adentrava pela janela. Desnudo-a aos poucos. Beijando-lhe os lábios, puxo sua bolsa. Em vão. Tento mais forte, porém ela parece não querer se desvencilhar dela. "Solte". "Não posso". "Nem agora?", "não". "O que tem de tão importante ai?". "Algo que você perdeu faz tempo". "Ainda posso recuperar?", "não creio". "Então é algo que você não pode ficar sem?", "Provavelmente uma hora perderei, mas aqui estou apenas para te tentar e te lembrar da perda."
    Tento ignorar a bolsa e prossigo, envolvo-a. Mas não consigo parar de pensar na bolsa. Forço novamente a bolsa. Levo uma pancada nos testículos e uma cabeçada no nariz. A vadia corre pela rua enrolada em um lençol enquanto eu completamente nu a persigo. Acuo-a em um beco. O mesmo da noite anterior. Ela grita. Pergunto com uma frieza não condizente com a situação: "O que tem ai?". "Uns chamam de amor próprio, outros de dignidade. Para você seria salvação". "E para você o que é?", " Uns batons e uma carteira". Ela grita de novo.
      Sinto uma facada na barriga. Depois mais umas sete. Deixo-me escorrer pensando em tudo que ela disse. A consciência se esvai, junto com meu sangue. Ao longe ouço: " Carona?", "Seria ótimo".

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

12 linhas (ou Canto para a Modorra)

Das sombras que me perseguem
Às sombras que eu provoco
Vejo tudo escuro e oco
Opaco ao toque e ao sussuro
Nas sombras em que me esmurro
Sinto a brisa dos vencidos
Até os versos não lidos
Trazem a dor de seu refrão
Sinto o mundo pela mão
Do poeta mal-amado
O sofrimento azeitado
Pela dor no coração

Trago os olhos ofuscados
Trago a lua e trago o eu
Não sei quem foi que venceu
A lida do cantador
Eu troco tudo que for
Por um dia de princesa
Para me afogar na fineza,
e me transformar em meretriz
Não sei porque que eu quis
Essa vida devagar
Eu só quero poder gritar:
"De tudo vi, de tudo fiz."

De cada gemido ouvido
Quero ser o capataz
Me perder em sempre mais
E clamar por lucidez
Ganhar desfaçatez
Me punir pelo temor
Me agarrar ao fervor
De cada gole do vinho
Seguir a vida de mansinho
Rindo da sobriedade
Rezando para a verdade
Se perder em seu caminho

Não me venham com um lastro
Com carinho ou com afeto
O meu desejo e objeto
Não se encontra em cada flor
Quero tudo de uma só cor
Expandindo o movimento
Para nunca achar alento
Na riqueza ou na miséria
Bruxuleando em cada artéria
Cantando ritos ateus:
"Me leve a vida, meu Deus,
Mas não me leve a pilhéria."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vale do Jucá

Nesse clima de fim de férias, nada mais digno do que parar pra pensar no que ficou. De todos os momentos passados nesses parcos 2 meses de descanso, ócio e vadiagem sei que apenas alguns serão selecionados para o hall das coisas que realmente me marcaram. E o resto, para onde vai?
As lembranças são pedaços do mundo e das pessoas que você gosta que lhe são ofertados para te dar apoio nos momentos difíceis. Sei... As lembranças são simultaneamente aquelas plumas que lhe acariciam o ego e mascaram os acontecimentos mais amargos, e os petardos sempre dispostos a acabar com o nosso dia. Assim como conviver com elas?
Todas as lembranças são cruelmente encarceradas no fundo de nossa mente. Medida mais que necessária. Não há decoro ou caráter que resista a todas elas. As mais tenras coitadas, são relegados a mesma escuridão que  as mais encardidas, isso quando não são suplantadas pelas vergonhosas rememorações de nossos atos diários ou isolados. Existem as teimosas, que insistem em marcar sua presença nos momentos mais inoportunos, as felizes que controlam a singela vontade de se matar e as simplesmente inesquecíveis. 
As lembranças que realmente importam, as que nos tocam indelevelmente e com a ternura do olhar perdido sustentam a nossa dor e o flagelo cotidiano costumam ser as mais despretensiosas. Hoje olho para trás e por mais que não consiga distinguir cada momento simples e puro de felicidade sei que elas estão lá, velando por mim. E assim espero, até chegar o dia em que olhar para trás não seja apenas singles desconexos, mas uma obra coesa que possa chamar de minha.

Obs1: Existem também aquelas que inutilmente encarceramos, pois na verdade estamos apenas rezando para conseguir acessar o HD que todos nós carregamos e sem nenhuma piedade deletar a dita cuja.
Obs2: É incrivelmente fácil lembrar daquele menino que te batia na escola, mas tente se lembrar do nome da morenaça que você conversou na festa!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aos rígidos, os caixões.

Verme imoralista, verme amoralista, verme anarquista, verme niilista, verme Eu. O verme-eu a corroer a sociedade do seu âmago, com a profundidade das palavras simples e a objetividade de quem fala o óbvio. Na minha desmoral invado as entranhas de tudo e de todos. Ou serão apenas minhas? Ou será apenas eu? No anti-gozo de minhas faculdades mentais não consigo chegar a uma conclusão. Muitas digressões no meio do caminho. No meio do caminho rastejo, imoral e amoral como sempre. No caminho dos outros ou em meu caminho? Meio caminho?
O caminho é longo para os que partem. Mas nunca parto. Permaneço na espreita de mais um a cair aqui, a zombar de todos os rijos corpos que desabam enquanto me avaliam e me julgam. Necessitado espero virem correndo em minha direção, tão necessitados como eu, mas sem a paciência necessária. Necessitados todos. Tropeçam um após o outro em seu próprio discurso, irretocáveis até. E sigo rastejando por suas entranhas ante o regozijo geral da nação. Ou apenas meu próprio?
Verme-eu observo. Ascético quase, porém apenas cínico. Impassível entre tantas entranhas alheias e conhecidas. Devoro diligentemente tudo, tomando o cuidado necessário de sempre tudo rejeitar. Assim prossigo. Na terra como o verme, como verme-eu, como eu-verme e como eu. Com a moleza peculiar que só os vermes possuem, e o plus inerente ao Eu. Mole, nunca hirto como os que aqui estão. Onde estão?
Eu ver-me. Não perco cada passo em falso, cada caminhar penoso, cada perna trêmula. Apenas observo cair. E deleito-me. Aceito o anti-gozo, pelo ante gozo. Aproveito-lhe em cada segundo. Acordarei em um ressaca homérica vomitando em flashbacks todos os tensos corpos indigeríveis? Ou apenas não acordarei?
Acordar. Farei-o na terra como o verme e como o eu. Eu ver-me. Não em caixões de madeira cara, ou mesmo de ripas. Tudo me parece acessível, nenhum cetim no mundo é capaz de negar ao verme sua presa, à presa seu verme. Ver-me no escuro. A claridade dentro das entranhas de todos os estranhos que habito me cegam. Realmente cheguei lá? Sinto apenas o sabor da madeira nova e da seda vermelha. Andando em círculos talvez? Parei de sentir o progresso. Ver-me. Verme. Será essa a resposta para tudo?
Não sei aonde cheguei. A cada passo meu corpo lânguido se enrijece e se contrai. Cada vez mais tenso e tenro. Saboreio-o apenas para amargar meu paladar. Ver-me. Irei a algum lugar? Sairei da terra para qual fui feito? Na terra onde sempre fui o eu e o verme. Adentro-a cada vez mais. Abrindo meus olhos e enrijecendo. Reconhecendo cada entranha digerida, enfim digerida. Afundo-me. Meu corpo teso resiste em rastejar mais. Caio na claridade que me ofusca, porém só agora vejo. Estou de volta a superfície entre minhas tão conhecidas entranhas. Duro. Imoral, amoral e paralisado. Aos rígidos, os caixões.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O chamado

Eu deveria ter ido ontem. Eu deveria ir hoje, e quase me atrevo a dizer que deveria ir amanhã. Pois algo me chama. A janela bate marcando o fim de um capítulo do meu dia, conclamando à cerveja gelada que está no bar. O peito dói as ingerências ulteriores, bem como o fígado. A chuva anuncia que meu tempo acabou. Mas algo me chama.
Reneguei as calcinhas usadas esquecidas na ebriedade cega da sexta à noite, reneguei o trabalho acumulado por esses meses de esbórnia desenfreada, reneguei a frase não dita de ontem, o conto não escrito de amanhã, a corda partida do violão, o extrato bancário que fazia volume na carteira, o cinema pseudo-intelectual da sessão das dez, os autores que proclamo como profetas sem nem lhes ler um parágrafo...
Renego a família, os amigos, o bar, o café, o tempo e o espaço. Não por desdém, superioridade ou qualquer coisa que o valha. Apenas o faço com a certeza do inseto que insiste em pousar na tela do meu notebook. Tanto ele como eu sabemos que a minha tela é preciosa demais para ser suja por sua morte. Espero que a vida me dê isonomia.
Não vou renegar deus, o capeta ou mitra. Pouco me importa onde Lênin choraminga suas dúvidas e Smith sente seus demônios. Renego só o cansaço da falsa importância. A minha culpa me renegou, não há por que olhar para fora agora. Mas algo me chama.
A janela bate marcando o fim do capítulo da novela. Não ouço. Reneguei-a bem como o coaxar da minha consciência. O resto se foi, o luar e minha dor. O chamado urge, expulsando as ultimas gotas do meu ser de dentro da garrafa e de mim. Levanto-me, branco como o palimpsesto dos pecados e sigo. Enfim, um chamado a atender.
A janela bate marcando o fim de mais um capítulo da existência humana, ou só daquele velho dormindo na calçada. Passo no banco, tiro o extrato. Um leve tamborilo anuncia que a chuva voltou. Abro a janela.

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